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INSTANTÂNEOS
quarta-feira, agosto 25, 2004
 
ENCERRADO PARA OBRAS... GRATO PELOS CARTÕES DE VISITA AQUI DEIXADOS.
VOLTAREI. FCR
terça-feira, agosto 24, 2004
 
FICÇÃO

PARA SEMPRE

Aos jovens noivos que se vão casar,
Aos casados cansados e/ou reciclados

“Para que vos ameis e vos honreis
Até que a morte vos separe.”


Uma voz dentro de mim, em silêncio, me dizia, me ecoava “até que a morte vos separe”, a significar “para sempre”, “para sempre”, dita pela voz pausada do oficiante divino, e só agora se me gravava, que este é o momento das certezas, das juras não trocadas, das convicções profundas.
Ide em paz e o Senhor vos acompanhe!
Daria tudo por esta companhia, daria tudo para que nunca empalidecesse a tua pele suavemente rósea, morna do acordar da manhã, tudo para que não embaciasse o brilho do teu olhar, para que nunca se apagasse o teu sorriso.
Toda a herança do meu pai, as jóias que a mãe me deu pela partilha antecipada do seu testamento, o meu Jaguar da primeira geração, as tardes do futebol de todos os domingos.
Percorreria todas as igrejas e todas as capelas do meu itinerário de férias para ouvir, em cada altar, a frase mágica, tão breve como um dever “para que vos ameis e vos honreis”..

Júlia, por que apagaste o “querido” da tua fala de há pouco?
Júlia, por que acentuas com aspereza “a tua mãezinha”, quando antes dizias “a nossa mãe”?
Por que passaste a dizer, sistematicamente, “o teu filho”, “o teu carro”, “ o teu Banco”?
Júlia, por que deixaste de misturar os nossos ordenados, de maneira a não sabermos de quem eram os euros misturados?
Como é que o encanto cedeu ao desencanto?
Como se substitui a novidade pela rotina?
Júlia, por que pões serrilha nas tuas palavras?
Como aprendeste depressa a substituir os diminutivos de carinho por um “tu” de arremesso?
Júlia, por que corre fria a água de lavar a loiça e a do banho da manhã?
Por que é que o prazer ficou sem sabor?
Por que me agride o teu olhar, agora baço, no sítio onde antes era brilho?
Júlia, por que escorregaste na escada do vizinho?

Deus, por que os altares ficaram mudos à minha passagem pelas igrejas e capelas do meu itinerário de férias?
Deus, por que é que os filhos correm para a criada, em vez de correrem para o pai e para a mãe?
Deus, por que secaram todas as rosas do jardim?
Deus, por que não se cumpriu o teu “para que vos ameis e vos honreis”...e o desejo “para sempre, para sempre” se tornou tão pesado?

Deus, por que me abandonaste?

Deus, por que Te abandonei?

sábado, agosto 21, 2004
 
FICÇÃO
A VERDADE E A LISONJA
Um rei dos tempos de antigamente, quis saber como era, lá no íntimo fundo, como era, na verdade, o coração dos homens, como era o seu pensar e saber. Todos se julgavam inteligentes, alguns, dizia-se, eram sábios, o rei quis saber.
Mascou uma raiz de mau sabor e de cheiro repugnante, fingiu- se doente, um mal indefinido, aflito, mandou chamar o seu médico pessoal, que não tinha importância, dores de estômago?, do coração?, passam com Bayer, mau hálito?, não noto nada de anormaltchim, dá-me sempre estes espirros quando falo com V. Exª.
Veio o ministro das Relações Públicas, V. Exª está pálido, talvez do ar frio da manhã, ah!, desculpe, é já noite, talvez seja da claridade baça do luar, mau hálito?, não noto nada de anormaltchim, estou um bocado constipado.
Veio o ministro dos Negócios Estrangeiros, falou das razões geoestratégicas do governo, tão amadurecidas pelo rei, que alguma teria apodrecido, causando aquele odor a que V. Exª chama fedor.
Veio o ministro da saúde, que não ficasse preocupado, que a saúde de V.Exª e a saúde do país eram de ferro, talvez um pouco ferrugento, nas extremidades, nada de grave, nada de grave, daí, aquele aroma que não é nenhuma peçonha.
Veio o superministro da Economia e das Finanças, dois ministérios para gerir o cabedal capital do rei e do reino, que ficasse descansado, não lhe parecia que as bolsas de valores mobiliários corressem qualquer perturbação, nem pensar, talvez uma pequena bolsa, debaixo da língua de Sua Exª, não, não podia ser a causa de tal cheiro, nem pensar, pelo contrário e vice- versa, não acha Sua Exª?
À noite, cansado de tantas causas daquele cheiro fingido, chegou, preocupado, a casa. Veio a mulher alvoroçada, abraçou-o à saída do trem oficial, querido, meu querido, estás com ar lavado, perfumaste-te para me ver, até a tua roupa cheira a alecrimatchim.
A mãe desceu pesadamente dos seus aposentos de rainha velha, não quero ajuda nem piedade, eu desço com a minha bengala, mas o que é isto?, que cheiro, que fedor, filho, apodreceste?, deixa ver a tua boca, que cheiro deitas, que hálito te deixou esse tabaco indígena, é de desmaiar, socorro, não suporto este cheiro. Não se inquiete, mãezinha, vou já mastigar esta pastilha Trident, que alívio, que alívio, mãezinha, sossegue, por favor.
Noticiaram os jornais, em grandes parangonas, uma remodelação ministerial, tão profunda que abalou todos os ministérios, e até a mulher foi arrastada pela mudança, querido, então, então, querido, por que te mortificas, que foi? Que foi?, meu amor, meu bem, eu?, eu? Eu? Era o médico pessoal do rei que dizia, lisonja? Algum medicamento novo? Não conheço. Eu? Era o ministro dos Negócios Estrangeiros que perguntava, Lisonja? Algum novo Estado, saído de uma descolonização apressada, não conheço ainda, não falei ainda com o meu homólogo, ministro dos Negócios Estrangeiros de tão falado Estado. Lisonja, era o ministro da saúde que dizia, lisonja?, talvez outra epidemia, atípica, por certo, mas não se aflija Sua Exª, temos vacinas suficientes para vacinar toda a população, contra tal surto viral, bacterial, gripal, que fosse. Nós, era agora o ministro da Economia e das Finanças que dizia, quem poderá acreditar em tal demissão nossa, que poderia afugentar os investidores, e lá se ia a Economia e as Finanças de Sua Ex.ª?
Foi grande o alvoroço em todo o reino, até então, tão ordeiro, tão alheio aos problemas do rei e do seu governo, agora tão inquieto e perturbado com as notícias desencontradas de tal epidemia, que o rei teve de ir à TV de antigamente, a declarar, firmemente, tivessem calma, que lisonja não era uma doença, era uma ordem honorífica com que ia condecorar os ministros do reino e até a rainha, sua mulher.
Então, o rei se arrependeu de ter querido saber como era, lá no íntimo fundo, como era, na verdade, o coração dos homens, como era o seu pensar e saber e, um pouco febril, era talvez a tal epidemia viral ou gripal, gravemente, adoeceu.

quarta-feira, agosto 18, 2004
 


Ola Mundo

terça-feira, agosto 03, 2004
 
FICÇÃO

A SERRA ( “in memoriam” da serra do Caldeirão in “Lendas Legendas” )
Subir a serra do Caldeirão, pela estrada velha que ainda serpenteia entre Loulé e Lisboa, inclinar-se um pouco para a esquerda, a alguns quilómetros do Barranco do Velho, é ver a serra, intacta ainda, como Deus a criou, nos tempos genesíacos.
As árvores ainda se abraçavam sem pudor, os rebentos saíam vigorosos dos troncos enrugados e carcomidos e apontavam, uns, as alturas, outros, os vizinhos do lado, outros ainda, o chão atapetado onde pareciam brincar.
De repente, duas árvores se afastaram, de propósito, para deixar ver, numa espécie de miradouro, todo o Algarve, o Alentejo, e lá, ao fundo o mar.
Não se sabe qual teria sido a profissão principal de Deus, se construtor, se desenhador, se pintor. É provável que tivesse sido arquitecto paisagista.
Poucas linhas tiradas a régua e a esquadro, perto árvores abraçadas para sempre, pintadas de várias cambiantes de verde, a contrastar com os amarelos dos campos de Verão, e com o azul verde do ar.
Tanto empenho, tanto talento, para construir um reino sem rei nem senhor, tanta cor para quê? Pergunto-me , sem responder, que a resposta estava a meus pés, um carreiro de formigas com o mundo às costas, alheada da paisagem, abria trilhos, furava o chão, construía os seus bunkers, para guardar provisões para o Inverno a chegar e se defender das tentações de se condoer dos cantadores de Verão.
Mais além, no reino de gente grande, o veado, vejam bem, altivo, de hastes atiradas para o ar, senhor feudal dos poucos daqueles sítios, talvez enamorado pela corça que passa ao lado, a fingir não ver o rei, este eterno fingimento feminino, quem lhe ensinou, foste tu, meu bem? E para quê, e para quê, continuava ela a perguntar, se aquele galã da serra, nem se dignava olhar para ela? Toda se alindara, toda se ensaiara o que lhe pareceu um sorriso, meio comprometido de envergonhado, tanto cuidado para nada...
Quebraram aquele se enlevar, sem resultado, o tonto! , de rompante, quatro ou cinco javalis, fugidos de qualquer perigo, talvez de terem ouvido falar aos seus tetravós que os reis de Portugal costumavam caçar por ali, com verdadeiras matilhas de fidalgos e de galgos de temer. A serra se sobressaltou, uma corneta atroou, os cavalos dispararam, riscavam as setas os ares, felizmente , não nos apanharam, disseram os javalis, escondidos num refego da serra, ao vê-los, à desfilada, passarem, felizmente, em direcção ao nada.
Lá em cima uma pomba fazia, como que a medo, a sua aparição. Venham todos, não tenham medo, não há qualquer perigo, ninguém já vem caçar com o falcão, antigamente, é que era perigoso andar pelos ares, que todos os reis e fidalgos, sem mais nada que fazer, escreviam e estudavam a Arte de Falcoaria, hoje, não!

O sol-posto apagou, de repente, todos os ruídos do dia, a serra se recolheu, lançou ainda um olhar a certificar-se que tudo estava bem, e adormeceu.

 
FICÇÃO
10. HUBBLE
Era grande a expectativa. O Estado-Maior da NASA transferiu-se para Washington, sede de todo o poder político e militar. Na mesa da presidência, em corpo, o Presidente Bush e, em espírito, todos os Presidentes, desde Kennedy a Ronald Reagan, do projecto “Lua para os EUA” à “Guerra das Estrelas”. Agora, era outro o programa, o mais ambicioso, de, ao mesmo tempo, descobrir vestígios de vida em Marte, descobrir outros planetas do sistema solar, e, fora dele, perscrutar a origem do Universo, que esse sistema solar é pequeno de mais para nós.
De ambos os lado do Presidente da nação, o Director da Nasa, Sean O’Keefe e o responsável pela ciência espacial, Ed Weiler. A razão daquela conferência em Washington e não em Pasadena, como seria natural, era, julgava-se, o anúncio, ao país e ao mundo, dos resultados das análises das fotografias de Marte, enviadas pelo Hubble, anúncio que deixaria espantada toda a comunidade científica internacional.
Sentados no meio dos “flashes” dos jornais e focos da CNN, Sky News e RAI, e outras estações, que cobriam o acontecimento com documentários sobre a aprazível e turística cidade de Washington, hoje, capital do mundo científico, comprimiam-se senadores e congressistas, que esqueciam as mínimas diferenças partidárias, para incharem de orgulho nacional. Alguns, poucos, se perguntavam tanto dinheiro gasto, para quê?, por que não eliminar a miséria do mundo, de África, Ásia e dos Estados Unidos, outros filosofando, respondiam, em silêncio, com a máxima latina “si velis pacem para bellum”, se queres a paz, prepara a guerra. A um canto do anfiteatro, mancha cinzenta de bem vestidos embaixadores de todo o mundo, da China ao Panamá, do monte Fuji à ilha Ogígia, gente grave. Portugal faz-se representar pelo cônsul honorário da Pensilvânia, senhor Sylva. Era grande a expectativa. Washington era o centro de gravidade do mundo científica e Hubble era a palavra que pairava na fala, no ar, nas mentes.
Senhor Presidente, Senhores Senadores, Congressistas e convidados, vão ser projectadas as últimas e recentíssimas fotografias do solo do Planeta Vermelho, tiradas pelo Hubble, e chegadas à National Aeronautics and Space Administration. Senhores, eis as fotografias de Marte! As primeiras imagens, bastante desfocadas, davam para ver um conjunto de rochas com grandes fendas, buracos que pareciam portas e janelas. O técnico projectorista conseguiu melhorar a imagem, mas, por muito que fizesse, ela aparecia sempre algo imprecisa. Em silêncio comprimido, senadores , congressistas e cônsules honorários, abriram os olhos, para não mais os fecharem, aquilo parecia ser parte dum bloco de qualquer bairro periférico de Washington ou de Bombaim e, para o cônsul de Portugal, o bairro “Fim do Mundo” do Estoril ou “A Quinta do Mocho”de Loures. Visto e provado, Senhores, que,Justify Full se não existe vida em Marte, nem que teria havido vida nesse planeta, está confirmado que teria havido condições para existência de vida, isto é, a existência de água salgada, em rochas do pólo norte, analisadas pelo Opportunity, e também no pólo sul, graças ao Mars Express, e confirmado pela European Space Agence.
Uma voz se ergueu tímida, mas logo se repetiu mais forte, fez-se silêncio, e voz se afirmou, ecoou por toda a vasta sala, e saiu cá para fora, e só parou, diante de um enorme cartaz, em letras capitais escrito, ostensivamente, no coração do mundo, na sede oficial da Nasa, USA, 20% de analfabetos funcionais, 13,6 % da população , abaixo da linha de pobreza, e WASHINGTON, 79 assassinatos, nos primeiros meses do ano, segundo a International Watching Rights, vidas que se poderiam ter salvo, e outras que se podem salvar, analfabetos funcionais que se poderiam, de novo, alfabetizar, populações, abaixo do linha da pobreza, que se poderiam dignificar, com programas de acção social e erradicação da violência, aqui, em WASHINGTON, com os restos que a Nasa gasta para provar não que havia vida, não que talvez tivesse havido vida, mas que teria havido condições para a existência de vida, longe, no Espaço, em MARTE!

domingo, julho 25, 2004
 
DE VEZ EM QUANDO: CONVERSA NO FIM DA RUA

O fim da rua da minha aldeia é uma espécie de “café”, sem mesas e sem cadeiras, onde todos se encontram, nos fins de tarde de Verão, sem qualquer discriminação de idade, estatuto social ou outra. Para os agricultores que ainda há e os comerciantes de frutos secos de árvores que ainda não secaram de todo, é uma espécie de “bolsa” onde se fixam cotações de um mercado em extinção e negócios, sem escritos, sem palavra de honra, só um “negócio feito” e um aperto de mão. É por isso que nenhum notário se fixou banca naquela aldeia e arredores.
Um dos assuntos preferidos das minhas conversas, velho que sou, é o comportamento dos jovens que começam a diferenciarem-se pela maneira de se vestir, a afirmarem-se pelos brincos, tatuagens e “piercings”, reflexo, diz-se, da sua revolta contra o conformismo dos pais, dos vizinhos, de todos.
O João é um miúdo “de palmo e meio”, usa uns sapatos com um respeitável tacão, que não lhe dá uma altura semelhante à dos rapazes da sua idade, dezoito anos, todos eles, atirados para as alturas, mesmo os filhos de gente meã, como são os pais.
- João, há várias formas de “apartar” as pessoas. Rotulam-nas de ricas e pobres, de doutores e não doutores os que não são de cor e os que o são, como se essas distinções fossem marca de pessoas de bem. A única distinção razoável é a que se faz entre o alfabetado e o analfabeto, entre o analfabeto radical e o funcional, entre os que dizem bem e os que não sabem dizer, em suma, entre os que lêem e os que não lêem.
Esse discurso é para ...
- Voltar ao teu abandono da escola, com um mísero 9º ano obrigatório. Os jovens saem das escolas com aversão ao saber, à leitura, mostram uma arrepiante ignorância, fruto do baixo nível da sua escolaridade ou da sua escolaridade distraída.
- O que eu quero é um emprego para deitar à cara da Sónia, que, eu bem sei, me quer e me desdenha, mas eu vou fingir interessar-me pela Lisete, a sua melhor amiga e confidente. É para saber. Fui ontem a uma entrevista para um emprego no Banco que vai abrir aqui. Foi canja, foi “fácel “, está no papo, estava lá um mar de gente, tirei o meu númaro e esparei inquieto. De dentro um senhor gritou “o senhor que segue”, quer saber como correu?
- Conta.
- Foi assim:
- Sente-se, por favor!
- Prefiro não me assentar, gosto de estar de pé.
- Esteja à sua vontade. Qual é o seu número?
- O meu númaro é o 22.
- Você é o último. Já são horas do almoço.
- Por acaso, eu já almoci um bocadinho, antes de vir. Em casa, é que há-dem estar ansiosos.
De que havemos de falar? Já não sei o que hei de perguntar. Você gosta de - futebol? O jogo de ontem...
- - Mediúcre. Pareciam os júniores.
Para a próxima será melhor...
- Num sará fácel .
- O árbitro não ajudou.
- Complicou, expulsou o João, se fosse comigo amandava-lhe um murro no afocinho.
- Bem, depois comunicamos.
Julgava que me ia perguntar dos cêntimos e dos euros, para caixa de um Banco...
- Já sabemos que sabe isso. Aliás, já sabemos tudo de si.
-Não compreendo por que não lhe deu logo aquele emprego.

domingo, julho 18, 2004
 
 
FICÇÃO
DESPEDIDA
Sabes, o João...
O João Aguida? Amigos de sempre, ódios para sempre! Lembro-me de quando o vi pela primeira vez. Teria uns 12 anos, como eu, aliás. O cabelo, sua glória e seu tormento. Molhado, espalmado, amansado de brilhantina, lá ia ele a caminho do liceu, todo direito, aprumado, só eu sabia por quê, aquilo é que é um rapaz, sem pressas, sem os desvarios dos outros, que mal chegados à rua, a bola de trapos a sair de uma pasta, eram desafios pela avenida acima, camisas desfraldadas, caras vermelhas a pingar...
O João...
O João, não. Tomara que o vento não se lembrasse do seu cabelo, já um pouco a despertar, a tentar levantar-se, bastava o vento encanado por duas ruas que confluíam na avenida para secar o suor daquele jogo da bola, já quase a findar, para que a brilhantina secasse um pouco, e o cabelo, finalmente, em liberdade, se levantasse, todo ao mesmo tempo, quais sovelas a espetar, e deixasse o João avermelhado e mais suado do que estavam os que tinham vindo a jogar desde o princípio do dia. Mas, hoje, não, tinha a certeza que o cabelo finalmente se amansasse, debaixo da camada da laca que roubara à mãe.
O João...
Se enervava, se tentava dominar, hoje atrairia os olhares da Júlia, julgava ele, cravados em mim, era o sino a tocar para acabar a aula e ainda o professor, esperem, trabalho para casa, o tonto, e a Júlia já à minha espera, no peitoril do corredor que separava as raparigas dos rapazes, separava, parvos, separem também os olhares solteiros, tanto quanto os nossos, em correria, a desafiar as ordens do reitor e os gritos separadores das empregadas daquele serviço de murar a gente, as raparigas já lá estavam, debruçadas do peitoril do corredor delas, olha aquele, olha aquele, era para mim que apontavam, tinha a certeza, assim 2+2... eram quatro palermas que nos empurravam, nos ultrapassavam e investiam na direcção dos sorrisos trocistas que eram, de certeza, para ele.
O João...
Não mais esqueci. Era sempre à segunda hora da manhã, retinia a sineta para o intervalo, malta, todos corríamos para o muro de separação daquele liceu ou daquela época? juro, não fui eu que o rasteirei, levantou-se o João, vinha vermelho, como sempre, agora, pela primeira vez, investe contra mim, juro, foi sem querer, foi para aparar o seu punho que estendi o meu e o seu nariz se espirrou, fresco roxo de sangue. Se encrespou, como nunca o vira até então. Eu não sabia, eu não sabia que o seu punho pararia antes de descer sobre mim. Nunca me perdoou.. Nunca lhe perdoei. Nunca mais me olhou, com tanta vontade de me olhar, nunca mais olhei para ele, com vontade de olhar, nunca mais falou comigo, com tanta vontade de me falar, nunca mais copiei pelo seu ponto os problemas de Matemática de quatro contas e mais, com vontade de copiar, sentava-se hirto na carteira que lhe coubera a meu lado, não fosse o meu braço tocar ao de leve e sem querer no seu, hoje, a esta distância de cinquenta anos, penso que o que mais o magoou, mais que o nariz esmurrado, o que mais me magoou,  mais que o seu punho fechado, foi sentir o seu cabelo a laca empinado, foi sentir-me desfeado perante a plateia feminina, foi ouvir, mais que a risada, uníssona, a furar os seus ouvidos, foi ver o olhar furioso da Júlia a atravessar-me de lado a lado, foi o lábio descaído da Júlia, desiludida, de lhe ver o cabelo assim ainda mais espetado.
Casou com ela.
Casou com a Júlia?
Casou. Quis convidar-te para o casamento, mas receava que rejeitasses o seu convite.
Me peno.
Quis participar o nascimento do primeiro filho, mas receava que não aceitasses a participação.
Me magoo
O João...
Sim...
Morreu ontem. Perguntou por ti. Queria despedir-se de ti.

segunda-feira, julho 12, 2004
 
ficção
8. E TU, QUEM ÉS TU?

Sou o que faltou à escola para ir armar aos pássaros.
O que, a caminho da escola, ia recitando o b-a ba.
O que queria passar sem estudar.
O que rasteirava o companheiro, sem ninguém notar.
O que ficou distinto em todos os exames do sistema escolar nacional.
O que aumentou as estatísticas do abandono escolar.
O que seduziu a noiva do João, para logo a desprezar.
O que deixou a oração no altar e foi socorrer o vizinho.
O que quis fazer o exame de Direito Processual Penal, sem se penar.
O que queria um grau académico, sem o tirar.
Sou o bom e o mau Samaritano.
O bom e o mau ladrão, de um lado e do outro do Crucificado.
O Publicano, o Judas traidor e o Pedro que negou o Senhor.
O que rezou, sem saber rezar.
O que sabe todas as leis para as não cumprir.
Sou o rico que se banqueteou com as migalhas do pobre.
O que queria que os caminhos se abrissem e que os espinhos se arredassem para ele poder passar.
Sou o sábio que descobriu o novo planeta do sistema solar, o Sedna, vão lá ver para crer.
O que descobriu que o sol gira à volta do planeta EU, sem o queimar.
O que revelou as fotografias que o Hubble enviou para a terra, que provam que teria havido água e, portanto, vida, em Marte, há tantos milhões de anos.
O que denunciou o erro de Descartes, a geometria euclidiana, e o quadrado da hipotenusa de Pitágoras que se cuide, não o vá alguém contestar.
O que zomba do “nada se perde” de Lavoisier e do “tudo se acha” de Santo António.
Sou o trabalhador que quer carro, telemóvel, férias em Cuba e Bogotá, para trabalhar, sem faltar.
O que quis que o pai lhe desse casa posta e mobilada, para bem se casar.
O que nunca descobriu o outro.
O que dá com uma mão e tira com a outra.
O que tira a coroa de louros e a substitui pela coroa de espinhos.
O que foi considerado uma pessoa de bem, sem o ser.
O que se enfeitou de penas de pavão.
O que perdoa ao próximo setenta vezes sete vezes, e não as conta.

Quem és tu?

Sou os que passam, em féretro derradeiro, na mesma caixa de cartão e de pinho, para o T zero, em promoção, no cemitério do lugar, um,

para a terra de ninguém,
outro, de passagem,
para a terra do além.


terça-feira, julho 06, 2004
 
FICÇÃO
7. VIÚVA; VIUVINHA

Viúva, viuvinha, já de luto aliviada, ainda ontem chorava, de preto mascarada.
Já chorei toda a noite.
Foi de medo o seu chorar?
Só passou, quando acordei.
Mas não chora agora, e o seu homem ali esticado.
Para quê tanto chorar? Se calhar onde está é ainda mais feliz.
Nem pensar.
Que quer, sr. gente, este já se foi, já passou tanto tempo, o António me requesta, pêsames, pêsames, se precisar de arrimo, o João me corteja, pêsames, pêsames, que vai fazer, logo à tarde? O Joaquim me telefona, pêsames, pêsames, onde vai, logo à noite, quer jantar no Gil André? Diga, sr. gente, onde fica o atalho estreito entre a censura e o desejo. As mulheres me censuram, me olham como que a dizer e já a censurar, o marido ainda não arrefeceu, será que ela se vai já casar? Os homens me olham, como que a perguntar e já a desejar, será que ela vai ficar solteira, sem homem mais a seu lado?
Viúva, viuvinha, espera um dia, uma hora, um minuto mais, deixa arrefecer o marido, paz à sua alma, que a terra não lhe pese.
Que fique e não volte.
Ainda vais ter saudades, de todos os maridos o melhor foi o primeiro.
Mas, sr. gente, eu ainda vou no terceiro, como poderei já dizer qual foi o melhor? Todos santos maridos, todos santos maridinhos, que a terra lhes seja tão leve quanto leves eles eram.
O povo vai falar e vai dizer olha aquela, ainda não enterrou o marido, e já quer outro na cama.
Vou esperar mais algum tempo, não quero que digam mal de mim. Veja só, ainda não casei, e já ando nas bocas do mundo. Custa muito andar na boca do mundo e, mais ainda, evitar de lá andar. Quero lá saber, todas me censuram, mas queriam estar no meu lugar.
Os filhos precisam das mães.
Casados estão.
Os netos...
Os netos dos infantários são.
Viúva, viuvinha, espera mais um tempo, que o corpo vá a enterrar.
Está bem, sr. gente, que exigente, que insistente, vou esperar um ano, embora o tempo que passei me tenha parecido um tempão.
Assim é que é, dar satisfação ao povo.


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Alô, Sim, o Joaquim? Sim, a rimar sempre com Joaquim, é só mudar o vestido, é um horror este preto, vou vestir-me de garrido, encontramo-nos no Gil André.





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